segunda-feira, dezembro 11, 2006

Na solidão
chora-se mais
livremente.

Sei lá o que dizer ou responder

quando me dizem, como disseram este verão, na praia:”pareces o Tony Ramos”.

Baptista-Bastos

De BB a noção que tinha era composta por um laço.
Um simples laço era a marca do escritor e jornalista.
Há cerca de um ano, ou dois, comprei a colecção completa da obra ficcional. Li os primeiros 3 livros. E deixei os restantes para outra altura.
O que me ficou de BB foi o estilo, a forma como trata a língua e a forma como estrutura as suas obras.
No domingo peguei em mais um romance seu. No Interior da Tua Ausência, com um título destes quem o poderá ignorar? Achei o título lindíssimo, e ainda que só tenha lido pouco mais de 20 páginas, tudo o que me agradara em BB ainda se encontra lá. A cacofonia de imagens, de vozes, de episódios. «A memória é isto mesmo: uma esquisita sobreposição de imagens» e este romance de BB é um puzzle, puzzle este que o leitor irá construir, encontrar o melhor lugar para determinada passagem e/ou capítulo. Um exercício mental, laborioso, prazeiroso e proveitoso. Um texto em que nos deparamos com um tratamento, quase sem igual, da língua.
Peguei no cd meio distraidamente. Coloquei-o no carro, e não posso dizer que estivesse a ter um dos meus melhores dias.
É interessante como o jazz molda-nos o estado de espírito, mas também se deixa moldar pelo mesmo.
Pela primeira vez, ouvi, de um modo diferente, estes trechos musicais por Miles Davis. Foi como se os estivesse a ouvir pela primeira vez, como se os estivesse a interpretar, através dos meus sentimentos, pela primeira vez. Como foi bom…

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Não sei se leram este post de FJV no Origem das Espécies sobre a qualidade do nosso jornalismo.
Verdade seja dita, e não é por ter sido o Benfica, mas fiquei chocado com a capa do Record ontem. E, continuando a dizer a verdade, esse sentimento já não é de ontem. Os nossos jornais desportivos não são jornais deportivos, são jornais "futebolísticos". Longe vai o tempo em que os jornais desportivos eram, pelo menos A Bola, do tamanho do antigo Expresso e saíam somente três vezes por semana, mas era também o tempo em que os jogos eram quase todos ao Domingo, e a horas decentes, à tarde, portanto.
Irrita-me, que em nome dos 6 milhões de Benfiquistas (por exemplo, mas podia ser com outro) se façam capas com a lesão ou possível venda de alguém e não com a vitória de qualquer clube que seja na noite anterior. A capa de ontem é sintomática, ainda mais comparando com a capa de hoje.
A minha pergunta, sem clubite, é quem é o editor? Quem faz a hierarquização das notícias? Há alguém no cargo? De certeza? É que observando o fenómeno a frio, as capas dos jornais, todos, e do Record, ontem, por exemplo, não são tão diferentes dos jornais popularuchos que gostamos de criticar.
Este ano lectivo está a dar cabo das minhas leituras. Ou não tenho tempo, ou não tenho paciência.
Os livros que retiro da estante parecem-me requerer mais tempo do que aquele que tenho. Parecem-me pedir mais atenção. Tanto os romances, como os mais científicos/técnicos.
Tenho a biografia do Churchill pendurada, uns quantos livros sobre a Segunda Guerra Mundial, sobre Hitler e Staline, e um outro sobre os regimes autoritários à espera de melhores dias. Ai, ai.
Uma biografia sobre David Livingstone, e mais uma mão cheia de livros sobre isto e aquilo.
E tempo, alguém tem de sobra?

Sobrenatural

Sobrenatural é uma série sobre fenómenos sobrenaturais (com ênfase em fantasmas e poltergeists) com um saborzito adolescente, com humor, mas que ao longo dos episódios vai criando uma atmosfera/estilo próprio.
Não deixa de ser interessante que os episódios mais fortes sejam aqueles em que o sobrenatural esteja mais ausente!
Num destes episódios Dean exclama que de fantasmas ele percebe, mas não consegue entender algumas pessoas. Há, também, dois ou três episódios fortes, do ponto de vista da emoção, episódios estes marcados pela presença de fantasmas. O episódio piloto chega a meter um pouco de medo. E este é um dos pontos fortes da série, consegue aumentar-nos, mais, a tensão do que muitos filmes de terror.
Sobrenatural tem o seu elemento mais fraco na forma como tenta convencer os espectadores da busca incessante dos dois irmãos pelo sobrenatural. A história trata de dois irmãos marcados pela morte da mãe por um demónio (?), criados pelo pai e educados no conhecimento do oculto/sobrenatural os irmãos possuem uma parafernália de armas para a luta contra o mal. Ao que parece a segunda série foca de um modo mais interessante/verosímil o objectivo dos irmãos.
A série não deixa de ser interessante, embora por vezes (como já referi) se encontre dividida entre um estilo adolescente e outro mais adulto. Parece-me, no entanto (e estou no 14 episódio da 1ª série), que anda à procura de um estilo próprio, estilo este que já se pode ver na forma como aborda a estrutura dos episódios. Está a tentar demarcar-se do estilo mais formatado dos primeiros episódios.
Uma série a ver, se se gostar é continuar, se não há outras coisas interessantes por aí.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Davis, Miles

Peguei no cd meio distraidamente. Coloquei-o no carro, e não posso dizer que estivesse a ter um dos meus melhores dias.
É interessante como o jazz molda-nos o estado de espírito, mas também se deixa moldar pelo mesmo.
Pela primeira vez, ouvi, de um modo diferente, estes trechos musicais por Miles Davis. Foi como se os estivesse a ouvir pela primeira vez, como se os estivesse a interpretar, através dos meus sentimentos, pela primeira vez.
Como foi bom…

Smackdown no Pavilhão Atlântico

Convém dizer que foi um sucesso enorme, e penso que nem a organização (WWE) estaria à espera de tanto, talvez por isso tenham anunciado a vinda da Raw em Junho.
Podem ler uma opinião bem mais longa e descritiva que a minha, aqui. E podem ver fotos do evento, aqui.
Quanto à minha modesta opinião, ia com mais expectativas, confesso.
O som era mauzito, e isto para usar um eufemismo (será que o eufemismo se mantém com a TLEBS?), não se percebia grande coisa, a ausência de ecrãs na entrada acaba por marcar a nossa opinião, já que estamos demasiado habituados ao cenário da televisão.
De onde me encontrava vi o que queria e desejava, mas vi, mais claramente, a forma como os socos e pontapés (não) são dados.
Fui, essencialmente, para ver a organização e o show-off. Theodore Long limitou-se a aparecer no início, estrondosamente e com estilo, mas desapareceu.
Os combates foram , na sua maioria, fraquitos e mais uma forma de encher chouriços (as 3 horas de evento), digo-o mas compreendo que isto são só house shows, eventos de promoção e não o programa semanal ou um pay per view. Mas, ainda assim esperava um pouco mais de surpresas e envolvimento.
Depois, tenho um problema com o público português.
Já vi, ao vivo, Iron Maiden, Pearl Jam, Nerd, Nelly Furtado, Avril Lavigne, e em todos os concertos e ontem no Smackdown o público teima em cantar "Portugal, olé, Portugal, olé" ou coisa parecida. Serão resquícios do regime salazarista?
E, para além disto, houve, no combate das Divas, direito a um "És tão boa, és tão boa" - ao que elas ficaram na dúvida sobre o que lhes estavam a dizer/chamar; e outros tantos gritos. Agora, o gritar por Portugal como se estivessemos num jogo de futebol, irrita-me.
Para além disto houve gritos de Eddie, Eddie; palmas e histeria moderada para Kane, que agradeceu o apoio, e histeria completa com Batista, que se manteve imenso tempo no ringue, a receber e bater palmas, com uma bandeira nas mãos e costados, e batendo no coração.
Era deste tipo de show of que eu estava à espera, ou mais à espera. Foi interessante, foi a oportunidade de ver algo que queria, mas a bisar com a Raw...
Só com um bilhete lá à frente, o que é sempre uma possibilidade, ou não.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Campanhas - TSF

As campanhas servem para nos lembrar de alguma coisa, são um sinal de vitalidade ou de último estrebucho, que me faz alguma confusão, a empresa está quase nas lonas e utiliza os últimos centimos numa campanha de publicidade...opções.
Ontem, não pude comprar o DN sem levar com um décimo de árvore acoplado ao mesmo, com o Santana Lopes e mais alguém, e o nome TSF em letras garrafais. Haverá pouca gente a ouvir a TSF? Se calhar. Querem que mais os ouçam?
Para mim, o erro da TSF foi o de deixar de ser algo concreto, para tentar ser algo de intermédio. As rádios precisam de ter características próprias, alma definida. A TSF sempre foi, para mim, a rádio das notícias, da voz, da discussão e de vez em quando, mesmo de vez em quando, passava uma musiquita. Hoje é uma rádio, quase generalista, com um leve excesso de serviços noticiosos.
Se há rádios que sobrevivem a dar martelada, jazz, música clássica ou outra coisa qualquer 24 horas, não há-de a TSF sobreviver?
As campanhas não resolvem, a meu ver, uma programação desadequada, formatada à imagem de outras rádios. E sempre se poupavam umas árvorezitas...

Smackdown

Pois é, hoje vou ver o Smackdown no Pavilhão Atlântico.
Já gostei mais do fenómeno do que actualmente. Muito do meu gosto inicial derivava da luta em si, achava fenomenal a forma como dois (ou mais) lutadores faziam todas aquelas acrobacias.
Há cerca de 5 ou 6 anos, quando via na DSF o que mais me puxava era o efeito na multidão, a forma como se construía a empatia com o público, noção tão cara ao marketing e à publicidade.
Hoje, vou vendo, mas a forma (adulta, sexual e um pouco brejeira) como o Wrestling é hoje vendido afastou-me do mercado. Parece-me um programa adulto com sensibilidade adolescente e pouco tacto.
Hoje, vou estar no Pavilhão Atlântico para observar como se vende, ao vivo, o espectáculo americano, ou um dos, por excelência.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Vendo casas, do verbo ver e não vender

Ou melhor, andamos. Depois de namorarmos há mais de 6 anos, está na altura de procurar um local para vivermos, dentro de algum tempo, em conjunto.
No Sábado vimos mais de 8. Não me sinto à vontade em entrar em casas de pessoas que não conhecemos, com os, ainda, habitantes e donos, lá dentro enquanto passeamos pelas divisões, procurando ver se a casa nos agrada, o tamanho de cada assoalhada, o estado, etc.
Vimos uma, em especial, que agradou a ambos. O prédio já tem alguns anos, é uma torre de 12 ou 13 andares, coisa rara no concelho do Seixal, mas a casa convenceu-nos. Era aquilo que ambicionávamos, aquilo que andávamos à procura. A ver vamos…
Agora, precisamos de indagar sobre o bairro, sobre o prédio, ver se descobrimos alguma coisa sobre os vizinhos, se são barulhentos ou não.
O sonho está perto, vamos a ver se se concretiza ou não.

Leone

Há poucos filmes que me dão prazer a mais que um nível, daqueles que podemos apelidar de obras primas. Falo daqueles em que a história é um verdadeiro achado, os actores são bons ou pelo menos bem dirigidos, a realização é (quase) perfeita e a banda sonora serve de apoio ao filme, completando-o e não sendo somente música para encher o ambiente.
Lembrei-me de Era Uma Vez na América, de Sérgio Leone.
A forma como somos levados pela doçura e crueldade, pelo amor e pelo ódio, pela violência ao longo do filme espanta-me cada vez que o vejo. A forma como a música preenche os espaços, sendo mais um actor do que mera música causa-me inveja.
A possibilidade de compreender e apreender o filme em mais do que um plano, ou com mais do que um sentido é…
É!
Maravilho-me com o final, demasiado dúbio, pouco condescendente com o espectador e sorrio, melhor, rio mesmo, com a explicação dada por Leone. Será que a história que viste existiu mesmo, que não foi uma trip da personagem principal?
Dos filmes que vi de Sérgio Leone fica-me a ideia de um mestre, na verdadeira acepção da palavra. A forma como usava a câmara, a maneira como a mesma nos mostra, ou por vezes nos leva a imaginar coisas, obrigando-nos a ser espectadores atentos, permeáveis a diversos sentimentos, alterando os nossos próprios sentimentos com a música. A música em Leone não é apenas som, não é apenas mais uma forma de ganhar dinheiro com uma banda sonora com nomes sonantes. A música é, quase, o esqueleto do filme. A base da nossa sensibilidade em contraposição ao mesmo.
Leone foi capaz de fazer um genérico de quase 10 minutos em Era uma vez no Oeste, e se tivesse levada a sua avante seria hoje uma das cenas mais famosas do mundo. Leone encarou Era uma vez no Oeste como o fim dos Westerns, dos seus e dos dos outros. Leone queria os seus três actores fetiche (Leo van Cleef, Clint Eastwood e Eli Wallach ) mortos no início do filme, como prova desse desejo e sentimento. Mas, eles não foram na cantiga. De chorar por mais é o diálogo final do filme…deixando-nos uma saudade imensa do universo que vamos deixar, ainda que com um sorriso nos lábios. Enquanto vemos a construção dos caminhos de ferro a dar cabo do “good old West”.

sábado, dezembro 02, 2006

Democrático, mas comunista

Uma coisa é falar, a outra é fazer.
Temos (cada vez menos) em Portugal comunistas muito por culpa do regime de Salazar. O Alentejo é (ainda) vermelho por oposição ao regime.
E, ainda que hoje o PS de Sócrates tenha pouco de esquerda, a divisão entre esquerda e direita faz sentido, para as gerações mais velhas, porque a direita é o bicho papão.
A grande questão é que em Portugal a Direita é sempre o alvo mais fácil(e primeiro) a abater. Olhe-se para o PCP. Lembram-se das trapalhadas Haider? Sempre que o austríaco era referido caía o carmo e a trindade, porque aparentemente era neo-nazi, e foi assim em toda a Europa; já Bernardino Soares veio a terreno referenciar o regime da Coreia do Norte como uma democracia e ainda que alguns tenham dado por isso, fico com a ideia de que para Bernardino aquilo é mesmo uma democracia.
Aliás, quando escrevo Bernardino podia escrever PCP. É que no PCP, e vemo-lo com Luísa Mesquita e o Autarca de Setúbal, o que interessa é o partido, não as pessoas. O povo, nos países em que o comunismo chegou ao poder, serviu apenas de trampolim, uma vez chegados ao poder começaram a dizimar o mesmo povo. O PCP é o primeiro a colocar em prática aquilo que na teoria critica e ataca.
E quando leio que o PCP quer 500 novos dirigentes, leio-o de duas maneiras. Primeiro, quer ver se arranja uma nova imagem. Em segundo, há que arranjar novos fantoches, uns que o povo queira conhecer, e que não conheceçam, tão bem, o partido.
O que me alivia é que os comunistas nunca terão poder em Portugal, e isso, ao menos, é já um alívio. Nem num partido de dimensão reduzidíssima evitam estas magalomanias próprias de quem gosta de ser pouco democrático.
Por estas e por outras, é que sempre que discuto com alguns amigos de esquerda e estes referem-me os regimes fascistas, eu refiro-lhes que estamos a falar de extrema-direita, enquanto que Cuba, China, Coreia do Norte são regimes de esquerda, os verdadeiros paraísos comunistas. Emigrem para lá...para as verdadeiras democracias.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Estranho como mudamos ao longo dos anos. Há alguns anos atrás, era um ávido consumidor de filmes e mais filmes, em casa, no cinema, na casa dos amigos. Hoje, passam-se semanas sem ver um filme, e quanto a novidades…quando as vejo já são clássicos. Enfim…
O que não quer dizer que não veja produtos de Hollywood, mas são mais séries, e a culpa desta mudança de atitude é, também, do DVD.
No fim de semana passado, olhei para a colecção de DVDs e escolhi um que ainda não tinha visto.
The French Connection/Os Incorruptíveis Contra a Droga. A bem dizer, não sabia se já o vira e não me lembrava dele, ou se realmente nunca o tinha visto. Não tinha!
Na capa podemos ler que se trata de um filme violento e rápido. Talvez, na altura fosse rápido, achei-o lento, positivamente lento, mas continua a ser um filme violento, principalmente na forma como aborda as situações e as personagens.
A história é baseada em factos verídicos, e trata da forma como dois polícias descobriram e desmantelaram uma rede de tráfico de droga.
Gene Hackman (aqui, com 41 anos) faz um dos melhores papéis da sua carreira, Roy Scheider (o de Tubarão) é irrepreensível naquele estilo quase europeu, pouco extrovertido que, na minha opinião, o caracterizava, e Fernando Rey, o actor espanhol (aqui a fazer de francês – como é normal a esquizofrenia entre os actores europeus a trabalharem nos EUA) mostra a sua qualidade.
Penso que o filme, como está, não teria o mesmo sucesso hoje. É claramente um produto dos anos 70. A forma de realizar, pairando e estudando as personagens, lenta e rápida ao mesmo tempo, dificilmente apelaria ao espectador “normal” de hoje. Nela não temos os heróis cheios de clichés a que nos habituámos estupidamente. São personagens reais, com os seus fantasmas, vícios, e taras. São personagens atormentadas com o passado e o peso do presente, com a necessidade de ter sucesso na sua investigação, cometendo erros, demasiado, infantis, que todo e qualquer espectador apontaria.
A densidade psicológica é uma realidade ao longo de todo o filme, o final é cru(el) e ambíguo. Ficamos na dúvida sobre o que acontece realmente, o que nos obriga a pensar no filme como um todo.
De antologia é a cena de perseguição, perseguição que fez estragos reais, quando um indivíduo ia a sair, de carro, de casa e foi abalroado pelo carro conduzido por Gene Hackman. Os produtores decidiram pagar os estragos e aproveitar o acidente nas cenas do filme.
Há, no entanto, para mim uma cena que define o filme, o final da perseguição. Com Popeye Doyle e criminoso ambos extenuados, ambos feridos e mesmo assim engajados num último (e para todos os efeitos, primeiro) duelo.
William Friedkin (o mesmo de Exorcista) assina este clássico da 7ª arte.
Uma boa (e barata – por menos de 10€ nas FNACs e WORTENs) prenda de natal para quem gosta do género policial e está farto dos fracos produtos contemporâneos.