sábado, março 31, 2007

O Breves Narrativas foi lavado e passado a ferro.
De cara nova, volta para dar a conhecer contos, narrativas, tentativa e leituras.
É esse o programa.

sexta-feira, março 30, 2007

Vender uma imagem de guerra como arte é obsceno, a reportagem de P2, suplemento do Público de hoje - 6ª Feira, 30 de Março - é extremamente interessante, e mais ainda porque vai de encontro a um dos livros que ando a ler. O Pinto de Batalhas de Pérez-Reverte.
No livro, Reverte conta a história de um fotógrafo de guerra que é abordado por um ex-soldado que fotografou anos antes. Se essa fotografia deu fama e prestígio ao fotógrafo, e é encarada como arte, transformou a vida do ex-soldado, que foi preso e torturado pelo outro lado do conflito, que viu a sua família perecer por causa dessa mesma foto.
Trata-se de um livro pesado, que pensa a questão da guerra, da arte da guerra, pinturas e fotografias, e a forma como nós a encaramos hoje. Trata também do imaginário bélico, e dos soldados e guerrilheiros fotografados ou pintados.
Para Jean-François Leroy, entrevistado na reportagem do Público, uma boa fotografia é "aquela em que estou a ver pessoas na imagem, e não estou a pensar no talento do fotógrafo.Se começo a pensar ´meu deus, que fotógrafo tão talentoso´, isso é mau.
Leroy fala da morte do fotojornalismo, e diz que não quer viver num mundo, já vive, em que o casamento de duas estrelas de Hollywood é mais importante que "a guerra no Iraque ou a fome no Darfur".
Um livro e uma entrevista a ler.

quinta-feira, março 29, 2007

Novo site da Cooperativa Literária, com notícias, capa e afins da Callema.
Critica-se Salazar, obviamente com razão, por ter torturado, censurado, e por não ter em conta o bem estar do povo.
Desculpem a comparação, mas passámos de um estado em que se prendia por tudo e por nada, para um Estado em que não se prende. Passámos da censura para a exaltação política, em que, provavelmente como em outros tempos, as mensagens ao país são ditadas pela hora dos telejornais. Passámos do governar contra o povo para o governar em prol do défice, o que vai dar, mais ou menos, no mesmo.


Hospitais, maternidades, SAPs são trocadas por ambulâncias, e como me diziam ontem, é mais um sinal de que o Serviço Nacional de Saúde está pelas costuras, em vez de esperar pela rotura, obriga-se os doentes a ir ao privado, não como oportunidade, mas necessidade. Assim quando o SNS der o berro, já não choraremos muito por ele.


Por outro lado, o nosso PM veio ontem a público incitar os trabalhadores sem o 12ºano completo a regressarem à escola, é necessário a requalificação, e o 12º ano é, para o PM, o "patamar mínimo de qualificação para todos os que trabalham", todos os outros são, seguindo a ideia, incapazes e inqualificáveis. Pena que tanto trabalhador do Estado, alguns com bem mais do que o 12º sejam socialmente inqualificáveis, e umas autênticas bestas no tratamento para com o contribuinte.
"É o melhor que podem fazer por vós próprios, pelo vosso salário e pela vossa empresa mas, também, pelo vosso País". E se depois ganharem o gosto, e pensarem na faculdade, não se queixem se ouvirem que têm qualificações a mais...
Falava com um aluno meu, que por necessidade teve de deixar de estudar, agora no curso de Engenharia Civil, congratulava-se de perceber e achar fácil uma cadeira de Física. Segundo ele, estava a recordar a Física do antigo 7º ano, os outros andam a apanhar bonés...
Precisamos de um país qualificado, entenda-se com o 12º feito; precisamos de um país tecnológico, com TGVs, OTAs e afins; precisamos de um país competitivo.
Deve ser por isso que estamos a fechar hospitais, a ver se os "velhos" morrem mais facilmente, a ver se ainda é possível salvar o SNS.
Grandes Portugueses? Para grandes males, políticas cegas...
"A Irmã Lúcia é muito maior do que a madre Teresa de Calcutá."
Divido-me entre achar que poderá estar na mente do Padre Luís Kandor a ideia de um programa denominado Grandes Católicos/as e a ideia de que Jesus ensinou os seus discípulos a serem (parte social) mais do que a quererem visões e outras diferenças místicas.
"Estupidez gananciosa leva-me o país pra cova", era mais ou menos assim uma música dos Xutos.
Depois das leituras sociológicas, de resposta ao Governo, de protesto e demais, agora vem a leitura política, que sinceramente...

Breve Narrativa sem clímax consensual(II)

Procurei a sua mão no escuro e coloquei-a na minha, apertando-a.

Confesso que nunca percebi, ainda tenho dificuldades, em perceber as mulheres, juntando a isto o timing a minha vida amorosa fica contada, pelo menos parte dela.
Nunca entendi o disse que não disse e o não disse que disse próprio das mulheres. Nunca percebi no sorriso, no riso, no olhar algo mais do que aquilo mesmo.
Ela era a minha melhor amiga, morávamos distantes um do outro, mas as cartas mitigavam qualquer distância. Víamo-nos de vez em quando, ríamos, conversávamos, ela buscava a minha presença e eu a dela. Nunca pensei nela de outra maneira que não como amiga, não porque não gostasse dela, mas porque me via inferior, inadequado, ela era inacessível.
Um dia alguém me disse que ela gostava de mim, e eu que não, como era possível? De mim?
Passaram-se meses, as cartas continuavam a fluir, e os meus pensamentos caminhavam de vez em quando para aquela conversa. “Ela gosta de ti.”
Convidei-a para ir ao cinema. Falámos um pouco, comprámos água e pipocas. Depois de acabadas as pipocas procurei a sua mão no escuro e coloquei-a na minha, apertando- -a.
Passámos assim os últimos 30 minutos de filme, de mão dada, mas a mão dela estava frouxa, senti-lhe um misto de sentimentos, por um lado não respondia como eu esperava, por outro não a tirou bruscamente. Manteve-se ali, de encontro à minha numa frieza constrangedora, mas ao mesmo tempo como prova de uma amizade enorme.
Levei-a a casa, falámos um pouco mais e deixei-a imerso nos meus próprios pensamentos, sem termos tocado no que tinha acontecido.

Nessa semana descobri que namorava há dois meses, pensei na minha mão na dela, e na forma como ela, humanamente e com amizade, me deu a sua resposta, sem articular uma única palavra.
Chamei-me de estúpido umas quantas vezes, teria perdido o amor da minha vida?
Vi-a com alguém que não conhecia, com alguém que invejava por uma questão de timing e de incompreensão.
Claro que é possível que ela nunca tenha gostado de mim.

quarta-feira, março 28, 2007

No Sábado, a propósito de uma coleção de cds que o Público anda a oferecer/vender, leio uma entrevista dos Delfins. A páginas tantas, ou a linhas, Miguel ângelo fala da música 1 Lugar ao Sol, e diz que "Da nossa primeira fase, foi das melhores coisas que fizemos".
E há alguma coisa que se aproveite da 2ª fase, pergunto eu?

Breve Narrativa sem clímax consensual(i)

Tirei uma mão cheia de amêndoas, daquelas caramelizadas.
Relembrei o meu pai, Deus o tenha, “10 segundos na boca, dez anos nas ancas…”. Tirei mais umas quantas. Sorri, um sorriso triste, é sempre triste quando me lembro dele. Morto há um ano, num estúpido acidente de viação. Não são todos os acidentes estúpidos?

Olho para o meu filho, que aos três anos não sente muito a falta do avô, já o esqueceu. Eu relembro-o várias vezes. A alegria com que vivia, um sorriso sempre pronto a desfazer a cara mais triste. Uma saúde de ferro. E de que valeu isso perante o camião com o pneu furado que foi de encontro a ele?

Lembro-me de ser pequena e ir a uma igreja com os meus pais. Das poucas vezes que fui a uma igreja. Talvez a primeira vez, num frio e molhado mês de Abril, numa igreja pequena, no Baixo Alentejo. Ali, ouvi a história da Páscoa. Como um homem, que também era Deus, tinha morrido numa cruz. Por todos nós. E o meu pai desfeito, o caixão ficou fechado, nada do que lá estava dentro nos poderia lembrar dele. Um pedaço de carne desfeito, ou pedaços a acreditar no meu marido. A cruz deu lugar a um monte de metal contorcido.

O ano passado lembrei-me daquela igreja, do significado, original, da Páscoa. E o meu pai morto.
“Mãe, dá-me um chocolate, um ovo desses. Dás-me?”
Agarro num ovo de chocolate, da marca que o meu pai me comprava, desembrulho-o e dou-o ao meu filho. Tento sorrir. Louro como o pai, irrequieto como a mãe. Guloso como os dois.

“Vamos?” –pergunta o meu marido. Depois de encher o carro com as três malas. Tanta mala para três dias.
Pego em mais algumas amêndoas, coloco duas na boca e sorrio. Chamo o António, visto-lhe o casaco. Vamos passar o fim de semana a casa da minha mãe. Será que ainda conseguirei sorrir na presença dela?

E assim entro no carro, a mastigar as duas últimas amêndoas, e o António lambuzado, a comer o ovo da Páscoa.
Pós-Título: Páscoa

terça-feira, março 27, 2007

A LER

O Ano Zero do Neo-Salazarismo de José Medeiros Ferreira, no DN.

Interpretar a Votação de Rosado Fernandes, também no DN.

Editorial do Público.
Salazar é Deus e Cunhal o Diabo.
Ou vice-versa.
Cunhal faz de Deus dando o lugar de Diabo a Salazar.
Branco no preto ou preto no branco.
Como se o fascismo, e os regimes (não conheço democracias) comunistas não fossem faces de uma mesma moeda.
Falo da concretização, não dos ideiais.
Ao contrário de muitos, e afinado pelo mesmo tom de outros tantos acredito que uma das causas da vitória de Salazar no passado Domingo deve-se ao ensino da História, ou mesmo por causa deste.


Como fará sentido o ensino da história unificada europeia quando desconhecemos a nossa própria história? E não falo só de Salazar, falo de Vasco da Gama, de Camões, de Pessoa, de todos os Reis, et caetera. Fará sentido conhecer mais da história da Alemanha ou da França do que da do nosso burgo?
A história ensinada, e eu sempre gostei de história, em Portugal, é pouco contextualizada, aprendemos factos, mas não aprendemos a cultura, os hábitos, as diferentes correntes de pensamento, políticas, culturais da época.
Fazendo um curso de Literaturas Modernas, com vertente em Estudos Portugueses tive duas cadeiras de História, ambas sobre os Descobrimentos.
Uma, era tipicamente uma aula de secundário. A Professora lia, e nós escrevíamos. Quando fazíamos uma pergunta que fugisse aos seus apontamentos ficávamos a olhar uns para os outros, para de seguida continuarmos o ditado.
A outra, contextualizava, explicava, problematizava, punha em contraste, defendia e atacava.
Talvez seja isto que falta ao nosso ensino da História.

E dizer que o Estado Novo tem sido ensinado...ao longo dos meus 18 anos de ensino recebi a doutrinação sobre o que aconteceu, mas não fui levado a pensar sobre o que foi, porque é que aconteceu, que virtudes, se é que as havia, e que defeitos tinha ccriticamente. Foi-me entregue e pedido que transcrevesse esses dados num teste.
É óbvio que numa situação de crise as pessoas tendam a pensar no passado, e a romancear esse mesmo passado. Não sei se foi isto que aconteceu. É normal que as pessoas, mesmo as que sofreram tendam a lembrar-se das coisas boas, eram essas que os levavam a viver, era esse o seu alento. Não sei se foram estas pequenas coisas, muitas delas perdidas na nossa sociedade, que levaram à vitória de Salazar.

Fugaz

O cinema é diferente da televisão. Concordemos nisto, sem pensar em todas as razões que legitimam a afirmação.
Pasmo, muitas vezes, quando actores de sucesso, numa série de sucesso tentam sair/acabar contrato/fugir por se sentirem cansados, por quererem outros voos, cinematográficos, especialmente.
Pasmo, muitas vezes, porque reconheço o quase total insucesso da decisão.
Lembram-se dos X-Files? O que foi feito dos actores? O que é feito de Duchovny?
Dois exemplos, dois porque de momento não me lembro de mais nenhum, mas porque a insistência de Duchovny levou à entrada de um novo actor nas últimas séries.
Um mero exemplo para termos cuidado com queremos sempre mais.

segunda-feira, março 26, 2007

Dois extremos, duas medidas

Quando um senhor austríaco ganhou as eleições no seu burgo, Jorg Haider, toda a Europa explodiu em invectivas. Os nossos amigos comunistas sofreram de irritação cutânea e verbal. Que se matem os nazis, já se esqueceram do fascismo?

Quando o Primeiro-Ministro (pleunasmo) chinês veio a Lisboa ofereceu-se a chava da cidade. Poucos se irritaram, e os que o fizeram rapidamente foram esquecidos. Aliás, um dos deputados comunistas veio uns anos depois dizer que duvidava que a Coreia do Norte não fosse uma democracia, que não havia torturas nem outros arrepios à liberdade pessoal.

Para mim, fascismo e comunismo em acção são uma e a mesma coisa. Os resultados são pavorosos em cada um dos casos. Se Hitler fica para a história, e com ele Mussolini e Franco, pelas piores razões, o que fazer a Lenine, Fidel e outros?

Isto de chamar nomes a uns de outra cor, e aplaudir os nossos camaradas irrita-me.
Distanciação poderia ajudar um pouco. digo eu.